A Polícia Civil de São Paulo apontou a existência de um suposto plano para ocultar bens ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) após apreender, na casa da influenciadora e advogada Deolane Bezerra dos Santos, um documento de 12 páginas, quatro veículos de luxo, 19 relógios, 40 joias, R$ 51,4 mil e 1.550 euros. A informação foi publicada nesta segunda-feira (1) pelo blog do Fausto Macedo.
Investigadores afirmam que o material encontrado com Deolane, intitulado “cronograma estratégico e estruturação corporativa”, chamou mais atenção dos delegados do que os bens de alto valor recolhidos durante a Operação Vérnix, deflagrada há duas semanas no condomínio Tamboré, na Grande São Paulo.
A apuração da Polícia Civil mira um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à cúpula do PCC e ao líder máximo da facção, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, também conhecido como “Narigudo”. Deolane, Marcola e outros seis investigados receberam indiciamento na sexta-feira pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Entre os investigados, aparecem familiares de Marcola, um contador e um operador do esquema que a polícia relaciona à influenciadora. A defesa de Deolane informou que analisa o relatório final complementar da investigação e nega qualquer vínculo da empresária com a facção. A influenciadora sustenta: “Não sou bandida.”
Defesa de Marcola nega conclusão de culpa
A defesa de Marcola, conduzida pelo criminalista Bruno Ferullo, afirmou em nota que o indiciamento não representa reconhecimento de culpa. “O indiciamento constitui ato investigatório e não implica reconhecimento de culpabilidade”, declarou a defesa.
A Polícia Civil afirma que o documento apreendido reúne um roteiro de reorganização societária e expansão empresarial que, na avaliação dos investigadores, poderia servir para esconder a origem de recursos ilícitos e reinserir valores no mercado formal com aparência de legalidade.
Documento indicaria reorganização empresarial
Segundo o relatório complementar assinado pelos delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, o material não apresentava apenas dados cadastrais. Para a polícia, ele descrevia etapas, prazos, status de execução e empresas envolvidas em uma estrutura corporativa.
“Da análise do documento apreendido, verifica-se que o material não se limita a simples levantamento cadastral, mas revela verdadeiro plano estratégico de reorganização societária, expansão comercial e adequação regulatória do grupo investigado, com definição de etapas, prazos, status de execução e pessoas jurídicas envolvidas”, diz o relatório complementar.
O documento cita empresas de diferentes áreas, como holdings patrimoniais, publicidade, cosméticos e apoio administrativo financeiro. A Polícia Civil afirma que essa rede empresarial poderia dificultar o rastreamento do dinheiro e pulverizar a movimentação de valores.
Empresa de Deolane aparece no material
O relatório também menciona a DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda, empresa ligada a Deolane. Durante a investigação, a polícia identificou a companhia em um endereço que considera de fachada, em Martinópolis, no interior paulista, a 440 quilômetros da capital.
No documento encontrado com a influenciadora, a empresa já aparece com sede em outro endereço, no Jardim Grimaldi, na zona Leste de São Paulo. Segundo consulta feita pelos policiais à Junta Comercial de São Paulo, a mudança teve formalização recente, em 22 de abril de 2026.
Para os investigadores, essa alteração reforça a suspeita de continuidade das movimentações financeiras e societárias atribuídas ao grupo. A Polícia Civil também destacou que o documento “Cronograma Estratégico e Estruturação Corporativa – Grupo Deolane”, datado de maio passado, menciona medidas imediatas, expansão comercial prevista para julho e mudanças recentes em empresas ligadas à estrutura investigada.
Polícia vê tentativa de aperfeiçoar lavagem
Os delegados registraram no relatório parcial enviado à Justiça que o material apreendido fortalece a linha de investigação sobre um modelo organizado para ocultar valores.
“O documento apreendido fortalece a hipótese de que o grupo investigado buscava aperfeiçoar mecanismos de lavagem de dinheiro mediante reorganização societária, pulverização empresarial, expansão de atividades comerciais e utilização de pessoas jurídicas formalmente distintas”, anotaram os delegados.
A investigação relaciona essa estrutura a uma transportadora de valores do interior paulista atribuída ao PCC. A Polícia Civil afirma que o esquema teria movimentado um “oceano de dinheiro” da cúpula da facção.
Bens de luxo foram apreendidos em Tamboré
Durante as buscas na residência de Deolane, os policiais apreenderam veículos de luxo, joias, relógios, dinheiro em espécie, moeda estrangeira, aparelhos eletrônicos e documentos considerados relevantes para o caso.
“A apreensão desse conjunto de bens revela a existência de acervo patrimonial de alto padrão, composto por ativos móveis de elevado valor, fácil transporte e potencial liquidez, compatíveis com estratégias de preservação ou conversão patrimonial em contextos de lavagem de capitais”, afirmaram os delegados.
Entre os veículos recolhidos, a polícia listou uma Mercedes-Benz AMG G63, um Jeep Commander Limited, uma Cadillac Escalade e uma Land Rover Range Rover P530. Os investigadores afirmam que diferentes empresas registravam os carros, o que levantou suspeita sobre o possível uso de pessoas jurídicas para esconder patrimônio.
Perícia vai analisar celulares e computadores
Na casa da influenciadora, os agentes também recolheram 19 relógios de alto luxo, de diferentes marcas e modelos, além de 40 joias. A polícia ainda apreendeu R$ 51,4 mil, 1.550 euros, celulares, notebooks, MacBooks, iPads, CPUs e computadores iMac.
Os equipamentos eletrônicos seguirão para perícia. A análise pode indicar novas informações sobre movimentações financeiras, contatos, documentos internos e eventuais vínculos entre empresas, operadores e investigados citados no relatório complementar.
O indiciamento de Deolane, Marcola e outros seis investigados encerra uma etapa da apuração policial, mas o caso ainda depende de avaliação do Ministério Público e da Justiça sobre os elementos reunidos pela Polícia Civil de São Paulo.






