Na noite de quarta-feira (1º), o evento de lançamento do Salão do Artesanato Paraibano foi palco de um choque simbólico entre o passado e o presente político do estado. Durante a cerimônia, uma homenagem foi prestada à líder sindical Margarida Maria Alves, símbolo histórico da luta pelos direitos dos trabalhadores rurais. A celebração, no entanto, criou um visível constrangimento para o staff do governador Lucas Ribeiro (PP). Ele foi representado no evento pela primeira-dama, Camila Mariz.
O desconforto expõe as raízes profundas das oligarquias que ainda detêm grande parcela de poder na Paraíba. Lucas Ribeiro é bisneto do usineiro Aguinaldo Velloso Borges, antigo proprietário da Usina Tanques, em Alagoa Grande e figura central do chamado Grupo da Várzea. Esse grupo de latifundiários foi historicamente apontado como responsável por encomendar o assassinato não apenas de Margarida Maria Alves, morta a tiros na porta de casa em 1983, mas também do líder camponês João Pedro Teixeira, em 1962.
A força política e econômica de famílias como os Velloso Borges e os Ribeiro ilustra de forma clara como o poder se perpetua através de gerações no estado. Aguinaldo Velloso Borges, apesar de raramente concorrer a cargos eletivos diretos, construiu uma vasta rede de influência que o protegia da Justiça e o conectava aos altos escalões militares em Brasília.
Como o patriarca teve apenas filhas, a linhagem política foi levada adiante estrategicamente pelos genros e, posteriormente, projetada nos netos e bisnetos. O entrelaçamento de Virgínia Velloso Borges, avó de Lucas, com Enivaldo Ribeiro serviu para unir duas tradicionais oligarquias ligadas à exploração da cana-de-açúcar e do algodão.
A justa homenagem a Margarida Alves em um evento oficial do Estado coloca luz sobre uma ferida que a política tradicional tenta a todo custo manter silenciada. Margarida foi a primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande e lutou incansavelmente por direitos que hoje parecem básicos, como carteira assinada, férias e jornada de oito horas. O crime gerou repercussão internacional e inspirou a Marcha das Margaridas, mas até hoje nenhum dos mandantes do Grupo da Várzea foi efetivamente punido. O próprio usineiro Aguinaldo faleceu em 1990 sem jamais sentar no banco dos réus.






