O número de pessoas registradas em situação de rua no Brasil quase dobrou desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).
Principal base de dados do governo federal para identificação de famílias de baixa renda e pessoas em situação de vulnerabilidade, o CadÚnico registrou, em média, a inclusão de cerca de 4,6 mil pessoas em situação de rua por mês desde janeiro de 2023. Entre 2019 e 2022, a média mensal era de aproximadamente 2 mil novos cadastros.
Segundo a apuração, o ritmo de crescimento começou a se intensificar ainda em 2022, durante o período de recuperação da pandemia de Covid-19, manteve-se elevado nos primeiros anos da atual gestão e voltou a acelerar no primeiro semestre de 2026.
Os dados, entretanto, não representam um censo nacional da população em situação de rua. Especialistas destacam que o aumento pode refletir tanto o crescimento desse contingente quanto a ampliação da capacidade de cadastramento e atualização das informações pelos municípios. Ainda assim, por utilizar a mesma base de dados ao longo do período analisado, o levantamento permite acompanhar a evolução dos registros.
Bolsa Família e debate no Congresso
A medida passou a ser questionada na Câmara dos Deputados. O deputado Hélio Lopes apresentou um requerimento de informações ao governo citando denúncias de que organizações criminosas estariam se apropriando de cartões do programa pertencentes a pessoas em situação de rua.
Em dezembro de 2023, o governo lançou o Plano Nacional Ruas Visíveis, com investimento inicial anunciado de R$ 982 milhões. Na época, o CadÚnico contabilizava 262,5 mil pessoas em situação de rua. Em junho de 2026, esse número já havia alcançado 392,4 mil, um acréscimo de aproximadamente 130 mil registros.
Essa interpretação é contestada pelo deputado Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania, que afirma que os dados são produzidos diretamente pelos municípios e não dependem do governo federal.
Já o ministério sustenta que o aumento também está relacionado à fragilização dos vínculos familiares, episódios de violência e abuso, desemprego, crises econômicas, eventos climáticos extremos e ao aperfeiçoamento do próprio Cadastro Único.
Norte registra maior crescimento proporcional
Embora os maiores contingentes continuem concentrados nas grandes cidades da Região Sudeste, o crescimento proporcional mais elevado foi observado nas regiões Norte e Nordeste.
Na Região Norte, o número de pessoas cadastradas em situação de rua passou de 4,9 mil para 22,8 mil entre janeiro de 2023 e junho de 2026, alta de 367%. No Nordeste, os registros aumentaram 109%, passando de 29,1 mil para 61 mil pessoas.
Nas demais regiões, os avanços também permaneceram elevados: 85% no Sudeste, 83% no Sul e 79% no Centro-Oeste.
Entre os estados, Roraima apresentou a maior variação proporcional, passando de 1.460 para 10.162 pessoas cadastradas em situação de rua no período, crescimento de quase sete vezes. O estado faz fronteira com a Venezuela e enfrenta impactos relacionados ao fluxo migratório.
Rondônia registrou aumento de 450% no mesmo intervalo.
Já São Paulo, que concentra o maior número absoluto de pessoas em situação de rua cadastradas no país, apresentou crescimento de 88% desde o início do atual mandato presidencial.

Norte registra maior crescimento proporcional




