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‘Cutox’, ‘escrotox’ e mais: harmonização íntima cresce e preocupa médicos

‘Cutox’, ‘escrotox’ e mais: harmonização íntima cresce e preocupa médicos

Redação Filipeia News Por Redação Filipeia News
23 de junho de 2026
em Mundo
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O mercado da estética vem ampliando suas fronteiras e, além da já consolidada harmonização facial, outras regiões do corpo passaram a chamar a atenção do público, como as áreas genitais e anais. Procedimentos como o “cutox” — aplicação de toxina botulínica no ânus —, o “escrotox”, na bolsa escrotal, e o preenchimento vaginal com ácido hialurônico já fazem parte dessa nova oferta estética e vêm ganhando espaço nas redes sociais e nos consultórios.

Ao mesmo tempo em que essa tendência se populariza, ela também acende debates entre especialistas. O avanço dessas intervenções divide opiniões de urologistas, ginecologistas, proctologistas, biomédicos e fisioterapeutas, que apresentam visões distintas sobre os limites anatômicos, os possíveis resultados estéticos e, principalmente, a segurança dos pacientes.

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“Cutox”: o que é e quais são os riscos?

A comercialização do “cutox” na internet baseia-se na proposta de modificar a textura da região anal, apresentando resultados visualmente mais lisos. Contudo, a comunidade médica aponta uma divergência conceitual importante em relação à estrutura da região.

O que diz a proctologia?

A médica proctologista Clarisse Casali explica que, anatomicamente, as dobras visíveis na região anal não correspondem a rugas de envelhecimento, mas sim a uma característica estrutural necessária para o funcionamento do órgão:

“O ânus tem o excesso de pele normal que é feito para ele abrir e fechar. No ânus, a gente precisa ter um tônus, o músculo precisa ter uma força normal, e você relaxar essa força não vai fazer com que ele tenha menos rugas, porque na verdade a ruga é a pele. Se a pessoa não tem essa prega, ele não consegue abrir. Aquilo não é flacidez.”

A proctologista destaca que, embora a toxina botulínica também tenha indicações terapêuticas em alguns casos de saúde, o principal risco da aplicação inadequada na região é a incontinência fecal, com perda do controle de gases e fezes. Segundo ela, como o botox atua promovendo relaxamento ou paralisia da musculatura, se atingir o complexo esfincteriano em planos incorretos ou em doses excessivas, pode comprometer o tônus muscular e afetar a função de continência.

“Esse risco de incontinência é muito raro em ambiente controlado, porque se trata de uma dose baixa e de aplicação superficial. Quando feita dessa forma, também não há impacto funcional importante. Mas, por outro lado, também não se observa um efeito estético relevante”, pondera Casali.

A prática estética nas clínicas

Profissionais que atuam na área de harmonização, como a biomédica Fernanda Prevedello, relatam que a demanda em clínicas é frequente e foca no bem-estar e no conforto íntimo. Segundo Prevedello, o relaxamento do esfíncter é buscado principalmente por mulheres casadas com o objetivo de reduzir o desconforto físico durante as relações sexuais.

Para evitar prejuízos ao controle fisiológico do paciente, a biomédica afirma que a segurança reside na profundidade da agulha.

“Se tiver aplicação errada, sim, a pessoa vai ter esse relaxamento indesejado. Por isso que ele é feito bem superficialmente. É só mesmo na camada bem da pele. Aplicando superficial não tem problema algum”.

A fisioterapeuta dermatofuncional Marina Carlis Coccetrone, que também realiza o procedimento, concorda que o conhecimento técnico é o diferencial para evitar intercorrências.

Carlis reforça que “existe esse risco se a pessoa não tiver conhecimento”, mas pontua que o foco deve ser a precisão: “Você tem que pegar o músculo certo, que você vai trabalhar a profundidade certa para atingir o músculo interno. Então, tem agulha certa, profundidade certa e a quantidade certa”.

Quando o botox anal tem indicação terapêutica?

Apesar das divergências sobre o uso estético, todos os profissionais concordam que a toxina botulínica cumpre um papel consolidado no tratamento de patologias específicas.

Entre as indicações terapêuticas validadas pela medicina estão:

Fissuras anais: Lesões na mucosa causadas por fezes endurecidas ou musculatura excessivamente tensa (hipertonia). O botox relaxa o esfíncter anal interno, reduzindo a dor e permitindo a cicatrização do tecido.
Pós-operatório: Utilizado em cirurgias de hemorroidas para evitar espasmos e dores pós-evacuação.
Anismos: Disfunção em que o paciente apresenta uma incoordenação e não consegue relaxar o músculo de forma voluntária para evacuar.
Dispareunia anorretal (dor na relação): A proctologista destaca que recebe muitos pacientes que relatam dor persistentem no ato sexual.

“A gente faz uma dose muito baixa, porque não obrigatoriamente é uma pessoa que tem o ânus apertado, só para não travar na hora. É um fim que traz muito conforto e que não é um fim terapêutico [de doença], mas que realmente muda a vida das pessoas”, diz Casali.

“Escrotox” e remodelação peniana

Os procedimentos voltados para o público masculino envolvem a aplicação de substâncias na bolsa escrotal e no corpo do pênis, gerando posicionamentos distintos entre o setor de harmonização e as sociedades médicas.

Modulação do escroto e relaxamento peniano

A técnica batizada de “escrotox” consiste na injeção de botox na região escrotal. Sob a ótica das clínicas de estética, Prevedello descreve que o objetivo é relaxar o músculo dartos (responsável pela contração térmica do saco escrotal) para dar um aspecto mais liso e amenizar a flacidez decorrente da idade.

Além disso, a biomédica detalha a aplicação voltada para o pênis conhecido como grower (aquele que se retrai significativamente quando em estado flácido):

“A gente utiliza o botox para fazer o relaxamento do pênis, deixar ele mais comprido. Ele fica aparentando maior quando fica flácido, então já aumenta uns bons centímetros e eles já ficam bem felizes, já aparece mais na cueca, na sunga”.

O que diz Sociedade Brasileira de Urologia?

A visão científica oficial traz ressalvas a essas práticas. O urologista Leonardo Seligra, membro da Disciplina de Estética Genital da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), esclarece que a utilização da toxina botulínica na estética genital masculina é classificada como experimental e não possui respaldo técnico de sociedades médicas.

“A ideia do uso da toxina botulínica na estética vem da dermatologia, aonde a gente sabe que a aplicação em algumas regiões musculares vai ter uma repercussão na pele. Daí surgiu a ideia de tentar usar isso de maneira estética no genital. Então, isso é, até que se prove o contrário, considerado experimental, porque a gente não encontra estudo científico que mostre esse tipo de utilização.”

Seligra alerta para os riscos potenciais decorrentes da falta de dados científicos de longo prazo sobre o procedimento na região testicular:

Risco à fertilidade: “Como é numa região relacionada ao testículo, a gente também não sabe o que isso pode ter impacto na fertilidade futura, na produção de espermatozoides, principalmente se houver uma injeção em planos inadequados, um plano mais profundo que acabe pegando os testículos.”
Perda de função: O urologista enfatiza que o mecanismo de ação da medicação é paralisar. Se injetada incorretamente, pode enfraquecer a musculatura pélvica, provocando alterações miccionais e impactos imprevisíveis na própria dinâmica da ereção.

Grossura x comprimento

No que diz respeito ao tamanho do pênis, há um alinhamento técnico entre os médicos e os profissionais de estética: nenhuma substância injetável altera o comprimento do pênis em estado de ereção.

A biomédica detalha que o foco dos procedimentos na área é a circunferência:

“O tratamento engrossa muito mais que aumenta, que na verdade é o que importa mais durante a relação. Ele chega ali de 3 a 5 centímetros de volume na primeira sessão, mas depende da quantidade que a gente vai colocar e da elasticidade para comportar o produto. Ele é feito bem na camada abaixo da pele, não influencia em nada interno”, diz Prevedello.

Seligra confirma que o ganho de circunferência através do ácido hialurônico possui melhor documentação, mas reforça a necessidade de triagem rigorosa e contraindica fortemente o uso de substâncias de caráter definitivo.

O urologista lembra que o Conselho Federal de Medicina proíbe a aplicação de PMMA (polimetilmetacrilato) para fins estéticos genitais devido ao risco de reações inflamatórias graves, rejeições teciduais e complicações que podem resultar em deformidades permanentes.

Harmonização vaginal

Na estética íntima feminina, a principal queixa nos consultórios e clínicas envolve a perda de volume e a flacidez dos grandes lábios vulvares.

O reflexo do uso de medicamentos emagrecedores

A ginecologista Ana Carolina Romanini, especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), a biomédica Fernanda Prevedello e a fisioterapeuta Marina Coccetrone relatam uma mudança perceptível no perfil das pacientes após a popularização de medicamentos injetáveis para emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro.

Segundo elas, o emagrecimento rápido e acentuado pode levar à redução significativa dos coxins de gordura do corpo, impactando diretamente a sustentação e o volume da região vulvar.

“Depois das canetas, tudo ficou muito mais flácido. A região íntima envelhece da mesma forma que o rosto. Muitas mulheres chegavam aqui praticamente sem os grandes lábios, sem estrutura de sustentação”, relata a biomédica.

Romanini faz uma distinção técnica sobre as abordagens mais indicadas nesses casos e explica por que o botox não é a principal escolha para tratar a queixa estética da vulva:

“Quando aplicamos botox, há um efeito de paralisia muscular. E na região íntima feminina o que predomina é a flacidez, não a contração. Os grandes lábios perdem volume e os pequenos lábios acabam ficando mais evidentes. O ácido hialurônico entra justamente para repor esse volume em áreas que ficaram ‘vazias’. Por isso, para essa indicação estética, usamos muito mais o ácido hialurônico ou o laser do que a toxina botulínica”, afirma.

Prevedello acrescenta que a reposição de volume nos grandes lábios também pode ter um efeito funcional, ao atuar como uma espécie de barreira mecânica, reduzindo o atrito com roupas e ajudando a proteger a entrada do canal vaginal contra agentes externos.

A ginecologista também chama atenção para a necessidade de cautela em qualquer intervenção na vulva, citando estudos anatômicos recentes que detalharam a complexa rede de inervação da região do clitóris:

“Eles mostraram que a inervação do clitóris é muito mais complexa do que se imaginava, com múltiplas ramificações. Ao entender essa rede nervosa, precisamos ter bastante cautela. Os ramos que seguem para o clitóris também se conectam aos pequenos lábios. Então, qualquer cirurgia estética ou preenchimento feito sem critério pode interferir na sensibilidade e impactar o prazer sexual e o orgasmo”, explica.

A médica defende que procedimentos como a ninfoplastia — realizada cirurgicamente ou com tecnologias a laser — devem ser indicados caso a caso, sempre com foco funcional e realizados exclusivamente por profissionais habilitados para atuar em estruturas anatômicas sensíveis.

Influência da pornografia e o peso das nomenclaturas

A disseminação de padrões estéticos e o uso de jargões comerciais para nomear procedimentos íntimos são vistos sob perspectivas distintas entre profissionais da saúde, especialmente quando se trata do impacto psicossocial dessas práticas.

A exposição constante da intimidade nas redes sociais e o acesso facilitado a conteúdos adultos são apontados como fatores que alimentam a insatisfação com a própria anatomia. A proctologista Clarisse Casali afirma que a busca por um padrão estético da região perianal já altera a dinâmica dos consultórios.

“Estamos vivendo uma era de nudes. O paciente chega almejando um ânus que nem precisa ser funcional, ele só precisa ser lindo. E esse ‘lindo’ não é real. O que existe é função. Eu já tive paciente que me disse: ‘eu quero esse ânus aqui’. E eu explico que cada corpo é único, que isso não existe dessa forma”, relata.

O urologista Seligra compartilha da preocupação e ressalta o impacto do consumo de pornografia, sobretudo entre os mais jovens. Para ele, o acesso precoce a esse tipo de conteúdo pode distorcer a percepção de normalidade anatômica e reforçar padrões irreais de beleza.

Nomenclaturas comerciais

Termos como “cutox”, “escrotox” e “bucetox” também dividem opiniões entre os especialistas. Para parte da classe médica, essas nomenclaturas prejudicam a comunicação científica e podem gerar estigmas.

Para a ginecologista Ana Carolina Romanini, os nomes têm caráter apelativo e acabam associando procedimentos médicos a conotações sexualizadas. Segundo ela, isso pode impactar inclusive pacientes que utilizam toxina botulínica para tratamento de condições clínicas, como o vaginismo, e não por motivação estética.

Seligra acrescenta que a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) estuda a elaboração de um documento com recomendações sobre nomenclaturas mais técnicas, com o objetivo de padronizar a comunicação e orientar inclusive profissionais não especialistas.

O outro lado

Na outra ponta, profissionais da estética defendem o uso desses termos como uma estratégia de aproximação com o público. A biomédica Fernanda Prevedello argumenta que restrições de plataformas digitais acabam dificultando o uso de nomenclaturas técnicas.

“Para não ficar algo tão pesado, a gente acabou criando o ‘cutox’, que soa mais leve. E isso acabou pegando, hoje todo mundo da área usa”, explica.

A fisioterapeuta Marina Coccetrone acrescenta que essa linguagem mais acessível ajuda a romper tabus e incentiva pacientes a procurarem atendimento. Ela também destaca o impacto positivo dos procedimentos na autoestima e na qualidade de vida.

“Para mim, harmonização é muito mais do que estética. É a pessoa voltar a se amar, voltar a se cuidar e se olhar. Tenho pacientes que me mandam mensagens emocionadas porque conseguiram evacuar sem dor ou porque voltaram a ter vida íntima sem vergonha do próprio corpo”, afirma.

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